Idioma / Language: English Português

Continuando com escritos nunca antes publicados, esta é uma crônica metafórica que escrevi em Julho/2015.


‘‘Imagine-se uma bactéria intestinal. Como seria refletir sobre a fonte de onde vem o fluxo de comida digerida do estômago? Para a bactéria, é tudo muito místico. Como e/ou por quê começar a investigar o que há além do intestino? A curiosidade nunca cessa…

Então, qual o ponto em que nós, seres humanos, somos como tais bactérias?’’


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É complicado tentar mostrar a imensidão de possibilidades além das piscinas geladas e as beiradas destas.

Daqueles que mergulham, grande parte acha um absurdo haver alguém de fora; advocam como é gostoso nadar, interagir com os semelhantes e o quão boa está a água. Se preocupam mais em convencer os que estão de fora a mergulhar do que com o próprio estado limitado de atuação e de congelamento.

“Afinal, muitos estão nadando por aqui; o que há de se fazer (sozinho) fora das piscinas? Só quem não tem o que fazer fica vagando por aí. Ou vais se juntar a quem está na beira das piscinas, e se contentar em criticar quem mergulhou?” - pensa quem já não sai da piscina há muito tempo.

Há outros que nadam tão acostumadamente que não têm percepção de que estão na água: “Há um pessoal congelando por aí, né?! Como pode?!”

Ao se ter noção da perspectiva de fora da piscina, a primeira reação intuitiva é tentar alertar; porém, palavras nunca são suficientes (além do som do movimentar da água ser de maior volume do que das simples palavras).

Há, então, muita reflexão…

Por que algo que parece tão óbvio de ser desconstruído é certamente assegurado? Como podem as possibilidades infinitas de vida se resumirem se congelar na água ou a rir de quem se congela? Como podem trabalhos dos que caminharam no incerto (no além das piscinas e de suas beiradas) serem consagrados mas a caminhada em si ser tão condenada? Acaba-se por tanger mentalmente os porquês dos fracassos da democracia, mas desconstruir este ramo particular de raciocínio fica para outra oportunidade.

Há, então, o sentir-se acorrentado. Parece que o livre e incerto caminhar de infinitas possibilidades não pode ser continuado enquanto algo não for feito para se expressar sobre o que visualiza a situação. Soa como muito desdém com os semelhantes. Afinal, como poderiam eles estarem realmente vivos, restritos a opções de atuação tão limitadas? Como comunicar isto a eles sem soar agressivo, ofensivo, superior, pragmático? Talvez seja paranoia, ignorância, impossível transmitir algo que não quer ser recebido. Talvez esta seja a grande arte da vida.

Então, um ímpeto de ousadia e compaixão, mergulhou.

Os que assistem à piscina da beirada julgam este como louco, masoquista.

“Você sabe bem o que está fazendo. Avisamos para não se misturar a este povo congelado”.

O intuito é mostrar que a hipotermia congela aos poucos e acaba por conduzir à uma interrupção evolutiva prematura; mas, mesmo assim, não importa o nível de congelamento, sempre é possível sair da piscina; nunca tudo está perdido. Se estiver congelado de mais, sem capacidade de sair sozinho, pode-se pedir ajuda e tentar trabalhar a ideia de que talvez a piscina congelada realmente não seja a única ou melhor opção. A vida pode(ria) ser muito mais bela e livre.

“Disseram para mergulhar, cá estou; e asseguro-lhes, há infinitas piscinas geladas como estas; todas rodeadas dos ‘zombadores’ que assistem quem entrou congelar; assim como há também infinitas possibilidades além deste nadar congelante ou do gargalhar a quem congela. Não precisamos disto; trabalhemos o diferente, acreditemos na concretização do incerto”.

Todos o rejeitam. Zombam. Riem.

“És louco? Só resmungas e reclamas; sabendo que é tão ruim, por que entrastes aqui, então? Apenas para reclamar e se mostrar superior?”

Agora, além de estar congelando, está em perigo, sendo ameaçado pelos seus semelhantes que estão congelando a mais tempo. Tomam aquele discurso como ofensivo.

“Você não imagina o quanto nos esforçamos para poder nadar nesta piscina! Por que fazes isto? Gostas de ver os outros sofrerem? Propagar más energias? Queres morrer afogado? Estamos felizes nadando entre nós, sem você. Preferimos a companhia de semelhantes congelantes que também fantasiam a felicidade do que um estranho que ousa falar mal de nossa piscina! Volte e fique lá com os zombadores que não têm coragem de nadar aqui!”

Os chamados ‘zombadores’, que nunca pularam em piscinas congelantes, condenam:

“Burro! Sabias que era ruim e quis pular. Agora estás contaminado com pensamentos do povo da água gelada. Se quiseres retornar aos que estão às beiras das piscinas geladas, trarás mais influências congelantes e, assim, serás eternamente taxado de ’traidor das águas geladas’ ou ‘burro congelante’”.

Antes de sair da piscina, ele identifica que nenhum destes faz o que faz por mal, seja dentro ou na beira da piscina. Não que isto seja desculpa para desencadear preconceitos e se assegurar orgulhosamente em certezas rasas de maldade para/com os semelhantes, mas cada um tem uma perspectiva e está num estágio evolutivo. Afinal, deve-se ter coragem para mergulhar na piscina congelada; assim como discernimento e censo crítico para saber dos motivos para não mergulhar.

“Será mesmo que em algum momento todos se acomodam? Levantam a bandeira do medo, o slogan ‘Não há saída, não há como pensar em opções diferentes destas’ e não buscam mais nenhuma desconstrução do que é e pode ser real e até onde pode ou não ir a capacidade cognitiva e de transformação desta realidade? …

… Que não existem apenas as piscinas congelantes e seus espectadores, ah, disso tenho certa convicção! Já estive tanto nas beiras quanto nas piscinas; não me arrependo nem condeno. Só quero tentar transmitir o que agreguei e trilhar um caminho próprio.”

Analogamente a organismos que rejeitam um corpo estranho, pessoas que se juntam e se estabelecem em grupos ressaltam seus atributos em comum e condenam os diferentes que querem cutucar esta zona de conforto formada pela ressalva destes orgulhosos atributos em comum. Entretanto, quando sozinhos, cada indivíduo tende a lembrar de sua unicidade e propõe uma maior abertura para desconstrução do antes preestabelecido.

Assim, com isto em mente e certo de que deixará a piscina em breve, recorda-se de que só existe o aqui e agora para atuação e sai a nadar por todos os cantos a fim de propagar pequenas centelhas de pensamentos que vão além deste cenário já calcificado. Por mais que a maioria continue a não lhe dar ouvidos e atenção, ele nota pequenas indagações quanto ao próprio modo de vida de alguns nadadores e continua incansavelmente. Afinal, isso é o que pode ser feito aqui e agora.

Sai da piscina suficientemente satisfeito. Ninguém saiu junto. Nem planeja sair. Mas a piscina já não parece ser a mesma.

Os ‘zombadores’ indagam:

“E aí traidor? Voltastes?”

Ele cogita fazer o mesmo quanto ao que foi feito na piscina, mas os ‘zombadores’ são resistentes quanto ao individualismo. O grupo é bem fechado. Então, acha mais fácil simplesmente sair, deixando-os sem resposta - isso pode causar reflexão. Não se importa como ficará sua imagem. Lembrou das bactérias: “não me conformo em simplesmente tratar como místico e inalcançável qualquer informação e/ou conhecimento a respeito de onde vem este fluxo de comida; por quê de cima? O que seria digestão? E estômago? Há muito o que se indagar para viver na certeza; para se contentar/conformar com o que o intestino apresenta.”

Para quem nunca sairá da piscina, ele certamente é visto como louco. Mas, para quem nunca entrou na piscina e não sai da borda, seria ele permanentemente visto como congelado? Nunca saberá? Muitos têm e terão inveja e manifestarão como incriminações e preconceitos. Há a certeza de não se preocupar tanto com as visões de todos, pois nunca agradará a todos; ninguém nunca conseguiu. Que isso não dê espaço para jogar tudo para o alto; mas sirva como uma fonte de autocompaixão para seguir a própria caminhada.

Por enquanto, continua satisfeito. Gosta das pessoas que ficam neste cenário, mas ama estar vivo. Existem muitas piscinas e respectivas beiradas e, no geral, são limitadas. Prefere a caminhada incerta, perigosa, duvidosa… Mas, viva. E que segue.